Sem leitura, perdemos vocabulário; sem vocabulário, perdemos pensamento; sem pensamento, perdemos debate; e sem debate, perdemos a própria possibilidade de vida democrática.
Há actos humanos cuja utilidade não se revela à superfície. Ler é um deles. Não gera produção imediata, não acrescenta valor económico visível, não resolve urgências nem responde à ansiedade de resultados que domina o nosso tempo. Ler não é “eficiente”. E, ainda assim, poucas actividades têm um impacto tão profundo, tão estruturante e tão silenciosamente transformador. A leitura é uma dessas práticas que parecem inúteis, mas que, na verdade, sustentam o essencial.
A utilidade da leitura não se mede por critérios de produtividade. Mede-se pela forma como amplia a consciência, afina a sensibilidade e nos devolve a capacidade de compreender o outro e a nós próprios. Num mundo saturado de estímulos, a leitura é um acto de atenção e a atenção é hoje um recurso escasso. É neste contexto que a biblioterapia ganha pertinência: ao sistematizar o poder dos livros e ao demonstrar, com suporte científico, que ler pode ser também um acto terapêutico.
A neurociência confirma o que a experiência humana sempre intuiu. Estudos de ressonância magnética mostram que a leitura activa áreas cerebrais ligadas à empatia, à memória emocional e à tomada de perspectiva. Em 2016, uma investigação publicada no Social Cognitive and Affective Neuroscience mostrou que leitores regulares apresentam maior densidade neuronal nas regiões associadas à compreensão dos estados mentais alheios. Ler treina, literalmente, o cérebro para a convivência humana.
Mas a leitura não actua apenas sobre a esfera emocional. Um estudo da Universidade de Sussex revelou que seis minutos de leitura podem reduzir o stress em 68%, superando métodos de relaxamento amplamente promovidos. Nas sessões de biblioterapia, observo frequentemente este fenómeno: pessoas que chegam agitadas encontram, nas palavras, uma forma de reorganização interna.
A leitura impõe-se como exemplo paradigmático… O que parece ser um gesto contemplativo é, na verdade, uma ferramenta discreta de transformação. Ler poesia permite aceder a nuances emocionais; ler romance treina a complexidade; ler ensaio desenvolve pensamento crítico, que é uma competência essencial numa época marcada pela velocidade da informação e pela superficialidade das opiniões.
Contudo, há uma dimensão da leitura que permanece frequentemente invisível: a sua influência directa no desenvolvimento da linguagem e, através dela, na capacidade de pensar em comum. A leitura é, antes de tudo, um exercício linguístico. Aumenta vocabulário, refina estruturas frásicas, amplia repertórios semânticos, diversifica modos de argumentação. Quem lê não apenas compreende melhor o mundo, mas compreende-o de forma mais articulada.
A ciência linguística mostra que a leitura é uma das principais vias de expansão lexical e sintáctica. Crianças expostas a livros, mesmo sem leitura autónoma, adquirem mais palavras, compreendem mais relações lógicas e desenvolvem melhor capacidade narrativa. Em adultos, a leitura regular correlaciona-se com maior precisão comunicativa e melhor organização do discurso. Não é apenas pensar: é ter ferramentas linguísticas para o fazer.
E aqui entra uma questão central: a linguagem é o espaço onde o pensamento acontece. Se a leitura expande linguagem, expande também pensamento. E se expande pensamento, melhora a qualidade da comunicação, do debate e das decisões colectivas.
Uma sociedade que lê é, inevitavelmente, uma sociedade que pensa melhor. A leitura, portanto, não beneficia apenas o indivíduo, mas beneficia o espaço público.
Num tempo em que a comunicação se fragmenta em slogans, reacções e frases instantâneas, a leitura oferece o contrário: complexidade, contexto e profundidade. Ler obriga-nos a seguir uma linha de raciocínio, a sustentar atenção, a ver causas e consequências. Obriga-nos a habitar o tempo do pensamento. E, ao fazê-lo, sustenta a própria ideia de comunidade. Afinal, só é possível pensar em conjunto quando existe uma linguagem comum suficientemente rica para acolher diferenças, nuances e discordâncias.
Por isso, a leitura é muito mais do que uma actividade cultural: é uma infraestrutura cognitiva. Um alicerce do entendimento público. Sem leitura, perdemos vocabulário; sem vocabulário, perdemos pensamento; sem pensamento, perdemos debate; e sem debate, perdemos a própria possibilidade de vida democrática.
Talvez por isso, na discussão sobre a utilidade do inútil, a leitura não seja apenas um exemplo: é o caso fundador. Porque aquilo que parece inútil, o tempo lento de abrir um livro, sustenta, silenciosamente, a qualidade das nossas relações, das nossas instituições e da nossa vida colectiva. E talvez valha a pena, numa próxima crónica, aprofundar esta ideia: a leitura não como prática individual, mas como um dos pilares invisíveis da saúde pública do pensamento.