Se o Reino Unido é um exemplo de integração da biblioterapia em políticas públicas e bibliotecas comunitárias, os Estados Unidos são o berço do termo e da sua formalização académica.
Foi ali que a biblioterapia começou a ser sistematizada, estudada e aplicada em contextos clínicos, psicológicos e educativos com um grau elevado de especialização.
Neste artigo, exploramos as origens do conceito, o papel da biblioterapia na saúde mental e as abordagens actuais praticadas em solo americano — e o que Portugal pode aprender com tudo isto.
Onde Tudo Começou: a palavra “biblioterapia”
O termo “bibliotherapy” foi utilizado pela primeira vez em 1916, num artigo de Samuel Crothers publicado na revista The Atlantic Monthly, intitulado A Literary Clinic.
Nesse texto, o autor propunha a ideia de que certos livros poderiam ser receitados tal como medicamentos — e que havia uma relação entre o estado emocional de uma pessoa e os textos que ela lia.
A prática, no entanto, já existia antes: nos hospitais militares americanos durante a Primeira Guerra Mundial, livros eram usados como forma de aliviar o sofrimento psicológico dos soldados feridos, promovendo recuperação emocional e mental.
Nas décadas seguintes, a biblioterapia foi ganhando terreno sobretudo em bibliotecas hospitalares, centros psiquiátricos e escolas, tornando-se um campo de interesse para psicólogos, terapeutas ocupacionais, bibliotecários clínicos e educadores.
Abordagem Psicoterapêutica e Aplicação Clínica
Nos Estados Unidos, a biblioterapia desenvolveu-se com um forte foco na aplicação clínica e psicológica. Em vez de depender exclusivamente da leitura literária, muitos terapeutas recorrem a livros de autoajuda, histórias com propósito terapêutico ou manuais orientados para desafios específicos (ansiedade, trauma, divórcio, autoestima, etc.).
A prática é frequentemente dividida em duas vertentes:
Biblioterapia dirigida (didactic)
Utiliza textos informativos ou educativos com o objectivo de ensinar estratégias de coping, desenvolver competências sociais ou lidar com experiências traumáticas.
Biblioterapia criativa (affective / interactive)
Baseia-se na leitura literária (ficção, poesia, biografias) como meio para evocar emoções, facilitar a identificação e permitir a catarse.
Ambas podem ser utilizadas por psicólogos, terapeutas familiares, professores, bibliotecários e até assistentes sociais — desde que com formação adequada.
Biblioterapia em Contextos Clínicos e Educativos
Nos EUA, é relativamente comum encontrar biblioterapia integrada em sessões de psicoterapia, grupos de apoio, escolas primárias, clínicas de saúde mental e centros de reabilitação.
Existem também terapeutas especializados em arteterapia que combinam leitura com escrita expressiva, pintura ou dramatização.
Em universidades, cursos de psicologia, biblioteconomia e educação incluem módulos sobre biblioterapia, e há programas de formação complementar para profissionais da saúde mental interessados em integrar a leitura nos seus acompanhamentos terapêuticos.
Um dos elementos mais fortes na abordagem americana é a validação científica: muitos estudos em psicologia clínica são conduzidos para avaliar os efeitos terapêuticos da leitura — com foco em sintomas depressivos, resiliência, regulação emocional e empatia.
Projecto de Destaque: The Center for Bibliotherapy (NY)
Um exemplo recente e relevante é o Center for Bibliotherapy, criado por psicólogos e psicoterapeutas em Nova Iorque, onde sessões de biblioterapia são conduzidas por terapeutas licenciados com formação literária.
Os encontros — presenciais ou online — incluem selecção de textos personalizados, leitura conjunta e conversas estruturadas com o objectivo de aprofundar a experiência emocional do leitor e trabalhar conteúdos internos.
Este centro procura também divulgar a biblioterapia como prática séria e complementar à psicoterapia tradicional, com ética, formação e limites bem definidos.
Que Portugal Pode Aprender com os Estados Unidos?
Muito — sobretudo no que diz respeito à profissionalização da biblioterapia enquanto prática clínica e à validação científica do seu impacto.
A necessidade de criar formações específicas e reconhecidas para profissionais que integram biblioterapia em contexto terapêutico
A importância da ética, da confidencialidade e da clareza do papel do biblioterapeuta
A integração da biblioterapia como ferramenta complementar em psicologia, psiquiatria, pedagogia e intervenção social
A valorização de projectos de investigação científica que avaliem os efeitos reais da leitura no bem-estar emocional
Portugal poderá, nos próximos anos, abrir caminho para uma prática biblioterapêutica mais integrada em contextos clínicos, tal como já acontece nos EUA — desde que com estrutura, responsabilidade e sensibilidade.
Observar a evolução da biblioterapia nos Estados Unidos ajuda-me a reforçar a visão que tenho para o seu futuro em Portugal: uma prática profissional, ética e reconhecida, com espaço tanto na saúde mental como na educação e nas artes.






