Biblioterapia no Reino Unido: Quando a Leitura É Parte da Cura

O Reino Unido é, sem dúvida, uma das grandes referências mundiais no campo da biblioterapia. Foi neste território que a leitura começou a ser utilizada de forma sistemática e estruturada como ferramenta terapêutica — não apenas em contextos informais, mas integrada em políticas públicas, no Sistema Nacional de Saúde (NHS), em bibliotecas, escolas e instituições clínicas.

Hoje, o Reino Unido oferece-nos um modelo inspirador de articulação entre literatura, saúde mental e comunidade. Um modelo que vale a pena conhecer — e do qual podemos retirar aprendizagens valiosas para o contexto português.

Uma Prática com História e Estrutura

Embora o termo “biblioterapia” tenha sido cunhado originalmente nos Estados Unidos, foi no Reino Unido que ganhou consistência prática, dimensão institucional e reconhecimento alargado.

A partir dos anos 2000, bibliotecários, profissionais de saúde mental e educadores uniram esforços para desenvolver programas baseados na leitura como promotora de bem-estar psicológico, abrindo caminho a uma abordagem mais comunitária, acessível e eficaz.

O grande ponto de viragem deu-se em 2013, com o lançamento nacional do programa “Books on Prescription”, criado pela Reading Agency em parceria com o NHS.

“Books on Prescription” — Ler por Indicação Médica

O conceito é tão simples quanto transformador: os médicos de clínica geral podem prescrever livros a pacientes com ansiedade, depressão, luto, insónia, stress ou outras condições de saúde mental.

Esses livros, criteriosamente seleccionados por equipas multidisciplinares (psicólogos, terapeutas, bibliotecários e leitores experientes), estão disponíveis gratuitamente nas bibliotecas públicas do país.

Com esta iniciativa, a leitura deixou de ser um mero hábito cultural para se tornar um instrumento prescrito de apoio emocional.

Em menos de uma década, mais de 1,2 milhões de pessoas já beneficiaram directamente deste programa — que continua activo e em expansão.

Bibliotecas como Espaços Terapêuticos

No Reino Unido, as bibliotecas públicas desempenham um papel central no ecossistema da saúde emocional.
São espaços de proximidade, de acesso gratuito, de silêncio acolhedor e escuta activa.

Nelas, para além dos livros prescritos, encontram-se grupos de leitura partilhada, oficinas de escrita terapêutica, sessões temáticas de biblioterapia, apoio a cuidadores, a adolescentes em crise ou a pessoas em sofrimento psíquico.

Este modelo de biblioteca viva e implicada na comunidade permite que a biblioterapia seja democrática, não clínica e livre de estigmas, aproximando o cuidado de quem dele realmente precisa.

Formação, Profissionalização e Ética

Embora ainda não exista uma certificação formal e única para o exercício da biblioterapia, o Reino Unido tem vindo a investir em formações especializadas para bibliotecários, psicólogos, professores e facilitadores de leitura.
Esses cursos, oferecidos por instituições como a The Reader Organisation, universidades ou bibliotecas nacionais, combinam prática literária, escuta empática e fundamentos psicológicos.

A força da biblioterapia britânica reside exactamente nesta interseção entre o rigor académico, a sensibilidade humana e a paixão pelos livros.

Caso de Sucesso: “Shared Reading”, em Liverpool

Um dos projectos mais reconhecidos internacionalmente é o “Shared Reading”, desenvolvido pela The Reader, uma organização sediada em Liverpool.

A proposta é simples: pequenos grupos encontram-se semanalmente para ouvir a leitura em voz alta de excertos literários, conduzida por um facilitador. A leitura é pausada, sentida, e dá lugar à partilha espontânea de emoções, memórias e reflexões.

O projecto tem sido aplicado em lares de idosos, prisões, hospitais psiquiátricos, escolas e centros comunitários — com resultados comprovados na redução do isolamento, melhoria do humor, aumento da empatia e reforço da saúde emocional.

Aqui, ler é um acto de encontro. Entre o texto e o leitor. Entre o leitor e a sua história. Entre pessoas que, juntas, criam sentido.

O Que Portugal Pode Aprender com o Reino Unido?

Muito — e o Reino Unido mostra que é possível estruturar a biblioterapia com seriedade, impacto e uma visão adaptada à realidade de cada país.

Que a leitura pode ser integrada no sistema nacional de saúde, com resultados mensuráveis

Que as bibliotecas devem ser activadas como espaços de cuidado emocional

Que a biblioterapia não precisa de grandes recursos, mas sim de formação, estrutura e sensibilidade

Que é possível criar redes entre cultura e saúde, com impacto profundo na vida das pessoas

 

Estudar e acompanhar o modelo britânico reforça, em mim, uma convicção profunda:
a biblioterapia pode — e deve — ter um lugar activo nas estratégias de promoção da saúde mental em Portugal.

Como vice-presidente da Associação Portuguesa de Biblioterapia, esta é a missão que abracei.
Dar uma casa à biblioterapia no nosso país. Criar espaço, estrutura, comunidade. Formar, reconhecer e apoiar.

Acredito que, um dia, também nós poderemos prescrever livros com o mesmo peso e legitimidade com que prescrevemos repouso, silêncio ou medicação.
Acredito que as palavras curam.
E que ler, juntos, é um acto profundamente terapêutico.

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