Biblioterapia: Intervenção na Prevenção da Doença Mental

Ao longo do meu trabalho com biblioterapia, percebi que ainda existe uma ideia muito comum: a de que esta prática serve apenas para ajudar quando já existe um problema emocional instalado.

 

É verdade que a biblioterapia é extremamente eficaz em contextos de apoio e tratamento, mas a sua utilidade vai muito além disso. Quero mostrar-lhe como pode ser uma ferramenta poderosa para prevenir problemas de saúde mental antes de estes surgirem – e porque acredito que, em muitos casos, deveria fazer parte das estratégias de promoção de bem-estar de qualquer pessoa, de qualquer idade.

 

A minha visão sobre prevenção

A prevenção é, para mim, o pilar mais negligenciado na saúde mental. Vivemos num mundo onde é normal cuidar do corpo com exames de rotina, alimentação cuidada ou exercício físico, mas quando se trata da mente, tendemos a reagir apenas quando algo “parte”. A #biblioterapia oferece uma alternativa: cuidar da saúde emocional de forma contínua, através de leituras escolhidas com intenção, que fortalecem a nossa capacidade de enfrentar desafios antes que estes se transformem em crises.

O que é realmente a biblioterapia

A biblioterapia é a utilização orientada e consciente da leitura – seja de romances, contos, poesia, memórias ou ensaios – para promover o bem-estar psicológico, desenvolver o autoconhecimento e abrir espaço para a mudança pessoal. Não se trata apenas de “ler mais”, mas de ler com propósito. No meu trabalho, utilizo a biblioterapia como um processo estruturado, em que a escolha dos textos tem objetivos claros:

  • estimular a reflexão sobre emoções e comportamentos,
  • inspirar soluções criativas para problemas,
  • ampliar a visão do mundo e de nós próprios,
  • reforçar a resiliência emocional.

 

Porquê falar de prevenção?

Porque é aqui que reside uma das maiores forças da biblioterapia. Estudos recentes mostram que programas de leitura orientada podem reduzir significativamente os níveis de #ansiedade e #stress, mesmo em pessoas sem diagnóstico clínico. Uma meta-análise publicada em 2023 no Journal of Counseling Psychology concluiu que a biblioterapia preventiva em escolas diminuiu em até 30% a ansiedade autorreportada dos participantes. Outro estudo britânico revelou que grupos de leitura em #bibliotecas comunitárias não só melhoraram o humor dos leitores como também aumentaram a sensação de pertença, um fator protetor contra a #depressão.

Como funciona este “treino emocional”

A leitura é, em muitos sentidos, um laboratório seguro para as #emoções. Quando acompanhamos personagens em conflitos, perdas e reconciliações, vivemos essas experiências de forma simbólica. É como se treinássemos o nosso sistema emocional para lidar com dificuldades, sem correr riscos reais. Este “ensaio emocional” permite-nos experimentar formas de pensar e reagir, para que, quando situações reais surgirem, estejamos mais preparados.

Além disso, a #literatura oferece-nos múltiplos modelos de superação. Podemos identificar-nos com uma personagem que enfrenta a perda com coragem, ou com outra que pede ajuda quando não consegue lidar sozinha. Cada uma destas narrativas acrescenta ferramentas à nossa “caixa de recursos” internos.

A importância da ligação social

Muitas das sessões que facilito em grupo têm um efeito preventivo que vai muito além da leitura. Ao partilhar interpretações, emoções e memórias evocadas por um texto, criamos uma rede invisível de apoio. Descobrimos que outros já sentiram o que nós sentimos, e que não estamos sós. Esta perceção é, por si só, uma forma de proteção contra o isolamento emocional.

Biblioterapia desde cedo

Na infância e adolescência, a biblioterapia é especialmente valiosa. Histórias bem escolhidas ajudam crianças e jovens a reconhecer e nomear sentimentos, a lidar com frustrações e a compreender perspetivas diferentes das suas. Este vocabulário emocional, quando adquirido cedo, funciona como um “sistema imunitário” da mente, reduzindo a probabilidade de desenvolver problemas emocionais mais tarde.

Integração na prática clínica e no dia a dia

Defendo que médicos de família, psicólogos, terapeutas ocupacionais e educadores poderiam integrar a biblioterapia nos seus contextos de trabalho. É uma prática de baixo custo, adaptável a diferentes públicos e com resultados sustentados. Por exemplo, um médico de família pode recomendar um biblioterapeuta ou, se tiver essa formação, um conjunto de leituras para um paciente em risco de #burnout; um professor pode usar contos para ajudar a turma a discutir emoções após um evento marcante; um psicólogo pode sugerir poesia como complemento ao trabalho terapêutico.

Mas também podemos aplicá-la sozinhos, no nosso dia a dia. Escolher livros que dialoguem com as nossas necessidades internas, e dedicar tempo a lê-los de forma consciente, pode ser um ritual de autocuidado tão importante como uma boa alimentação ou o exercício físico.

A minha abordagem e o meu livro

Foi com esta visão preventiva que escrevi Biblioterapia: O Poder da Poesia na Gestão Emocional. Neste livro, combinei fundamentos teóricos e práticos com poemas originais que funcionam como gatilhos de reflexão. Cada poema é acompanhado de propostas de leitura ativa e exercícios de escrita terapêutica, pensados para que o leitor não se limite a absorver as palavras, mas interaja com elas de forma transformadora.

Ao longo do livro, convido o leitor a explorar as suas emoções, a identificar padrões de pensamento e a encontrar, na beleza da poesia, caminhos de reconciliação interna. Acredito que esta é uma forma simples, acessível e profundamente eficaz de cultivar saúde mental antes de ela ser ameaçada.

 

Um investimento no futuro emocional

Prevenir é sempre mais humano e eficaz do que remediar. E a biblioterapia mostra-nos que a prevenção pode ser, ao mesmo tempo, um momento de prazer, de descoberta e de fortalecimento pessoal. Num mundo em que a pressa e a sobrecarga são constantes, parar para ler não é um luxo: é um acto de cuidado. E talvez, ao abrir o livro certo no momento certo, estejamos não só a cuidar de nós, mas a evitar dores futuras.

 

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