Nos países escandinavos — Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia — a leitura não é um luxo. É um direito, uma política pública, um modo de viver.
Neste contexto, a biblioterapia não se apresenta como uma prática clínica nem como um recurso alternativo à psicologia tradicional. Ela emerge de forma subtil, difusa, mas profundamente eficaz, integrada em sistemas de educação, saúde e cultura que reconhecem o papel da literatura no desenvolvimento humano.
Na Escandinávia, não é a biblioterapia que vai ao encontro das pessoas — são as pessoas que crescem dentro de um ecossistema onde os livros sempre estiveram presentes.
Bibliotecas como centros de bem-estar
Um dos pilares da biblioterapia escandinava é o papel das bibliotecas públicas, que não funcionam apenas como repositórios de livros, mas como espaços de encontro emocional, silêncio colectivo e apoio comunitário.
Na Suécia, por exemplo, 97% dos municípios têm uma biblioteca pública, muitas delas com serviços de apoio emocional, espaços de leitura silenciosa, clubes literários terapêuticos e programas de leitura para a saúde mental.
Na Dinamarca, existem bibliotecas instaladas em centros de saúde mental, hospitais, casas de repouso e até em centros de abrigo para refugiados.
A ideia é clara: o acesso à leitura é parte da saúde. O silêncio partilhado é um acto de cuidado. O livro é um mediador entre o mundo interior e o mundo comum.
A cultura do silêncio e da escuta
Os países escandinavos têm uma relação histórica com o silêncio, a introspecção e o tempo interior. A vida em contacto com a natureza, a valorização do espaço íntimo e a contenção verbal favorecem práticas de leitura mais profundas, lentas e reflexivas.
Nessa paisagem emocional, a biblioterapia não precisa ser anunciada. Ela acontece:
- quando um grupo se reúne para ouvir a leitura de um romance de Tarjei Vesaas num hospital norueguês
- quando crianças finlandesas escrevem cartas a personagens literárias como forma de lidar com emoções difíceis
- quando um bibliotecário sueco recomenda a leitura de um poema para aliviar a solidão de um idoso
- quando refugiados leem histórias do seu país natal em voz alta, traduzidas para dinamarquês, numa roda intercultural
Nestes gestos, a leitura deixa de ser apenas conteúdo. Torna-se relacional, sensorial, silenciosamente terapêutica.
Projectos e práticas significativas
- Biblioteket som Læge (Biblioteca como Médico) – projecto piloto dinamarquês em que bibliotecas oferecem aconselhamento literário para estados de tristeza, solidão, ansiedade ou luto, com sessões conduzidas por profissionais formados em literatura e escuta terapêutica.
- Livsläsning (Leitura para a Vida) – programa sueco que junta leitura em voz alta com diálogo filosófico e mindfulness, dirigido a jovens em risco e adultos com sofrimento psíquico leve.
- Kirjastoterapia (Biblioterapia nas Bibliotecas da Finlândia) – práticas informais desenvolvidas por bibliotecários em zonas rurais, onde a recomendação literária personalizada funciona como acompanhamento emocional.
- Bibliotecas de Oslo e Bergen (Noruega) – centros culturais com programação dedicada à saúde mental, com eventos de poesia, escrita terapêutica e leituras partilhadas para pessoas em convalescença, isolamento ou luto.
Formação e reconhecimento
Apesar de a biblioterapia não estar formalmente regulamentada como profissão nos países escandinavos, há um elevado grau de formação, investigação e investimento público.
As universidades oferecem módulos sobre literatura como mediação emocional. As bibliotecas trabalham com psicólogos e terapeutas.
Mais importante ainda: os governos locais e nacionais reconhecem o papel da leitura no bem-estar dos cidadãos.
Esta validação pública permite que a biblioterapia seja vista não como um “extra”, mas como parte essencial de um modelo de sociedade mais humana, mais sustentável e mais sensível à experiência interior.
O que Portugal pode aprender com a Escandinávia?
- Que as bibliotecas podem ser espaços de saúde emocional, não apenas de empréstimo de livros
- Que o silêncio também cuida — e que nem toda a biblioterapia precisa de ser verbal
- Que a presença do livro na vida quotidiana pode prevenir sofrimento antes que ele se instale
- Que a biblioterapia pode existir de forma transversal, integrada em educação, cultura, saúde e cidadania
- Que a leitura pode ser política de bem-estar — e não apenas hábito privado






