Biblioterapia no Brasil: leitura como cuidado nas margens do mundo

A biblioterapia no Brasil é profundamente marcada pela escuta, pela urgência social e por uma abordagem comunitária da leitura.

Enquanto noutros países a prática nasceu em espaços clínicos ou académicos, no Brasil ela cresceu entre livros de pano e bancos de praça, bibliotecas comunitárias e escolas públicas, casas de cultura e rodas de partilha.

A leitura foi-se tornando remédio — não por prescrição médica, mas por necessidade humana de existir com mais dignidade, sensibilidade e voz.

Neste artigo, exploramos como a biblioterapia se manifesta no Brasil: nas práticas quotidianas, nos projectos de mediação de leitura, na escrita como reconstrução identitária — e no impacto profundo que tem nas periferias, nas margens e nos afectos.

Uma Biblioterapia enraizada na realidade social

O Brasil é um país de contrastes: literariamente riquíssimo, mas socialmente desigual.
Neste cenário, a biblioterapia surge muitas vezes fora dos centros de poder — nas favelas, nos interiores, nos hospitais públicos, nos abrigos, nas unidades prisionais, nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), nas ONGs, nas escolas públicas sem biblioteca.

É nesse território que educadores, bibliotecários, psicólogas, terapeutas e mediadoras culturais vêm desenvolvendo práticas de leitura com intenção terapêutica: não como diagnóstico, mas como presença, escuta e possibilidade de transformação.

Leitura partilhada como gesto de cuidado

Na biblioterapia brasileira, o acto de ler é frequentemente colectivo:
ler em voz alta, ouvir junto, comentar com liberdade, deixar que o texto abra caminho para falar da vida.

Poemas de Adélia Prado, crónicas de Clarice Lispector, contos de Lygia Bojunga, letras de Chico Buarque ou versos de Manoel de Barros servem como porta de entrada para conversas sobre perdas, medos, alegrias, infância, ancestralidade, corpo, comunidade.

Esta prática é alimentada por uma tradição brasileira de oralidade, escuta e construção colectiva de sentido, que aproxima a biblioterapia da cultura popular e da pedagogia freiriana.

Escrita como reencontro com a identidade

Outro elemento importante é a escrita terapêutica: diários, cartas, poemas, bilhetes, fragmentos.
A escrita não é uma tarefa — é um espaço. Um modo de reorganizar o que dói, nomear o que ainda está preso, dizer o que nunca pôde ser dito.

Em muitos projectos brasileiros, a escrita surge como continuação da leitura — um desdobramento do encontro com o texto. Depois de ler, a pessoa escreve. Não para publicar, mas para existir com mais inteireza.

Exemplos inspiradores

  • Instituto Tear (RJ) – promove oficinas de biblioterapia com mulheres vítimas de violência, unindo leitura, conversa e reconstrução de vínculos.
  • Biblioterapia do Cuidar (RS) – prática desenvolvida pela psicóloga e biblioterapeuta Adriana Dornelles, que conduz sessões com adultos e crianças, integrando psicologia humanista e leitura literária.
  • Projeto “Ler para Viver” (BA) – realiza encontros com adolescentes em situação de vulnerabilidade, utilizando literatura como espelho e ponte.
  • Círculos de Leitura em Hospitais – grupos de leitura em alas de oncologia, geriatria ou pediatria, em que a leitura devolve presença e afeto em momentos de fragilidade.

Além disso, nomes como Regina Zilberman, Michele Andreazzi, Adriana Dornelles, Valeska Zanello e Adriana Ferrari vêm consolidando o campo da biblioterapia no Brasil com publicações, formações e experiências práticas.

Formação e reconhecimento

Apesar de ainda não existir regulamentação formal da profissão, há cada vez mais cursos livres e programas de extensão universitária voltados para a formação em biblioterapia — com uma abordagem ética, inclusiva e literária.

A Universidade de Brasília, por exemplo, já acolheu projectos de investigação em biblioterapia com enfoque na saúde mental, género e literatura.

No entanto, o reconhecimento ainda depende de maior articulação política e científica — algo que Portugal também enfrenta, e que pode ser terreno comum para cooperação futura.

O que Portugal pode aprender com o Brasil?

Que a biblioterapia pode ser comunitária, acessível, não elitista

Que o livro pode circular onde o Estado não chega — e ali ser gesto de cuidado

Que ler em grupo pode ser um acto de reconstrução colectiva da esperança

Que a escuta é tão importante quanto o texto

Que é possível praticar biblioterapia com ética mesmo sem clínica — com profundidade, afeto e consciência social.

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