Biblioterapia no Japão e na Coreia do Sul: entre o silêncio da leitura e a ausência de uma prática formal

O Japão e a Coreia do Sul são países onde a leitura tem estatuto elevado — cultural, espiritual, educativo. São sociedades que valorizam o silêncio, a introspecção e a estética da palavra escrita. E, no entanto, não existe, em nenhum dos dois países, uma prática institucional de biblioterapia como a que encontramos no Reino Unido, nos Estados Unidos ou mesmo no Brasil.

A biblioterapia, enquanto prática com nome próprio, formação específica, enquadramento profissional ou presença em políticas públicas, não está presente nem formalmente reconhecida nestes contextos asiáticos.

Este artigo propõe, por isso, uma leitura crítica: compreender o que há, o que não há, e o que poderíamos aprender, sem idealizações, com estas culturas em relação à leitura como gesto de cuidado.

Uma cultura de leitura profunda, mas não terapêutica

É verdade que tanto no Japão como na Coreia do Sul a leitura é vivida como prática importante – desde a infância até à velhice.
Há uma tradição forte de silêncio, escuta, contemplação e presença.

 

Há valorização dos haikus, das narrativas introspectivas, dos romances existenciais, da caligrafia literária e do tempo de leitura individual como gesto de cultivo interior.

 

Mas isso não é biblioterapia.
Não há sessões conduzidas por biblioterapeutas, nem enquadramento clínico, nem projectos estruturados com base em leitura dirigida para objectivos emocionais ou psicológicos.
Não existem, até à data, associações, formações ou centros especializados em biblioterapia em nenhum dos dois países.

Práticas que tangenciam a biblioterapia – mas não o são

Há, sim, experiências culturais, pedagógicas ou comunitárias que se aproximam, em espírito, da biblioterapia poética e relacional, mas que não devem ser confundidas com ela.

Exemplos incluem:

  • Tempo de leitura silenciosa nas escolas coreanas, usado para promover concentração e bem-estar emocional, mas sem intencionalidade terapêutica explícita;
  • Bibliotecas termais no Japão, onde se lê em silêncio num contexto de descanso, mas sem mediação profissional;
  • Oficinas de escrita de haikus em grupos de idosos, com efeitos terapêuticos possíveis, mas sem enquadramento biblioterapêutico;
  • Centros de leitura meditativa na Coreia, que integram mindfulness e literatura, mas não seguem qualquer modelo clínico ou estruturado.

Ou seja, existe terreno fértil — mas falta nome, método, ética profissional e estrutura.

Uma oportunidade ainda por explorar

A ausência de biblioterapia institucional nestes países não é sinónimo de resistência à leitura como cuidado, mas sim de uma valorização da leitura enquanto arte pessoal, mais do que prática orientada para a saúde emocional.

O que falta é uma ponte entre a estética da leitura e a sua aplicação terapêutica com método, formação e reconhecimento.

Se essa ponte for construída, com sensibilidade cultural e ética local, Japão e Coreia do Sul poderiam tornar-se referências em biblioterapia silenciosa, meditativa e estética. Mas ainda não o são.

O que Portugal pode realmente aprender com esta realidade?

Portugal não deve importar o que não existe. Mas pode, com discernimento, observar o modo como estas culturas valorizam:

  • O silêncio como espaço interior fértil
  • A leitura como acto de presença, não apenas de consumo
  • O tempo como aliado do cuidado
  • A beleza como parte do processo terapêutico

E, ao mesmo tempo, pode reconhecer que temos um caminho mais avançado na estruturação da biblioterapia como profissão, prática e movimento — com nome, ética, formação e comunidade.

 

 

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