A infância é um território de emoções intensas e vocabulário curto. É uma fase em que o mundo chega depressa demais, antes que as palavras estejam completamente formadas e antes que exista uma gramática interna para organizar aquilo que se sente. É precisamente nesse intervalo — entre a experiência e a linguagem — que a biblioterapia infantil revela todo o seu poder.
A biblioterapia é o uso intencional de livros para apoiar crianças na expressão de emoções, na compreensão de situações difíceis, na construção de identidade e no desenvolvimento de resiliência. Não se trata apenas de escolher “boas histórias”, mas de utilizar a literatura como ferramenta orientada, com acompanhamento atento e propósito terapêutico claro.
Hoje, vários países têm programas e estudos que demonstram que as histórias — quando mediadas e escolhidas com rigor — podem ser verdadeiros instrumentos de saúde emocional. E é a partir desses exemplos que Portugal pode aprender e construir o seu próprio caminho.
1. Porque a leitura é um instrumento terapêutico para crianças
Uma criança que lê — ou que ouve alguém ler — está a fazer muito mais do que seguir uma narrativa. Está a ensaiar emoções, a experimentar papéis, a observar conflitos, a reconhecer medos, a antecipar soluções.
A investigação internacional demonstra que:
- livros adequados ajudam a normalizar emoções complexas (medo, ciúme, tristeza, raiva, vergonha);
- a identificação com personagens funciona como uma ponte entre o sentir e o dizer;
- a discussão guiada após a leitura facilita regulação emocional e desenvolvimento de competências sociais;
- programas estruturados de biblioterapia têm efeitos reais em ansiedade, ajustamento social e agressividade em crianças e adolescentes.
Ao ouvir uma história que ecoa o que vive, a criança descobre que aquilo que sente tem nome, tem forma e tem solução.
2. Reino Unido: o modelo mais sistemático e documentado
O Reino Unido é atualmente o país com maior tradição organizada de leitura terapêutica infantil.
O programa Reading Well for Children (The Reading Agency) é um exemplo paradigmático:
- Destina-se a crianças dos 7 aos 11 anos.
- A lista de livros é validada por profissionais de saúde, especialistas em desenvolvimento infantil, educadores e bibliotecários.
- Aborda temas como ansiedade, luto, bullying, neurodiversidade, autoestima, TDAH, autismo, conflitos familiares.
- Está disponível em todas as bibliotecas públicas — totalmente gratuito.
Este modelo estabelece um princípio revolucionário: livros podem ser prescritos, à semelhança de intervenções terapêuticas leves. Professores, médicos e psicólogos recorrem à lista como recurso de apoio, criando uma cultura nacional de leitura orientada para o bem-estar.
3. Estados Unidos: biblioterapia em hospitais pediátricos e escolas
Nos Estados Unidos, a biblioterapia infantil emerge de forma consistente em dois contextos fundamentais.
a) Hospitais pediátricos
Especialistas em child life utilizam livros para:
- explicar diagnósticos ou procedimentos médicos;
- preparar crianças para cirurgias ou tratamentos invasivos;
- reduzir ansiedade hospitalar;
- apoiar famílias em situações de doença grave.
A leitura funciona como ferramenta de desdramatização, criando previsibilidade e segurança emocional num espaço que, para uma criança, é altamente intimidante.
b) Escolas e programas de desenvolvimento socioemocional
Em milhares de escolas norte-americanas, biblioterapia é incorporada em programas de:
- competências socioemocionais (SEL),
- apoio psicológico escolar,
- grupos de gestão emocional e social,
- intervenção com crianças experienciando ansiedade, agressividade ou adaptação difícil.
Aqui, o livro é utilizado como espelho e como laboratório emocional.
4. Israel: investigação profunda em biblioterapia infantil
Israel é um dos contextos mais estudados na biblioterapia contemporânea, com investigação documentada em crianças e jovens:
- grupos terapêuticos com rapazes agressivos, baseados em leitura e discussão orientada;
- estudos sobre biblioterapia cognitiva vs. biblioterapia afetiva em jovens com dificuldades de ajustamento;
- programas clínicos em que contos funcionam como dispositivo de reorganização psicológica.
Os resultados são consistentes: melhoria na gestão emocional, diminuição de comportamentos disruptivos e aumento da adaptação social.
5. Aotearoa/Nova Zelândia: a narrativa como cuidado comunitário
Na Nova Zelândia, embora não exista um programa formal de “biblioterapia infantil”, há práticas profundamente terapêuticas integradas na cultura maori.
O modelo whānau ora privilegia o bem-estar familiar e coletivo, e há projetos que utilizam:
- storytelling maori como forma de reforçar identidade;
- narrativas tradicionais como apoio emocional;
- atividades de leitura que funcionam como ponte entre gerações, cultura e saúde emocional.
Estes exemplos mostram que, mesmo sem a designação formal de biblioterapia, o uso terapêutico da narrativa é culturalmente central.
6. O que estes exemplos internacionais nos ensinam
Há elementos estruturais comuns:
- A leitura é orientada por profissionais (mediadores, psicólogos, bibliotecários, biblioterapeutas, professores).
- A escolha dos livros é criteriosa e vinculada ao tema emocional da criança.
- O processo inclui conversa, expressão criativa, desenho, escrita ou jogo simbólico.
- E existe, em muitos casos, avaliação sistemática dos efeitos.
Estes países demonstram que, quando a leitura se articula com saúde e educação, ganha força terapêutica real.
7. Portugal: um potencial imenso à espera de estrutura
Portugal tem condições excecionais para desenvolver biblioterapia infantil:
- uma rede de bibliotecas públicas exemplar;
- mediadores de leitura qualificados;
- crescente sensibilidade para a saúde mental infantil;
- e um discurso público que reconhece a urgência da prevenção.
Falta ainda:
- uma lista nacional de livros orientados para biblioterapia infantil, adaptada ao contexto português;
- formação interprofissional;
- programas integrados em escolas, bibliotecas e centros de saúde;
- articulação entre literatura, psicologia e políticas públicas.
Mas o caminho existe, e está ao alcance do país.
Quando ajudamos uma criança a ler, ajudamo-la a sentir e a crescer
As histórias podem ser cura, espelho, bússola e abrigo.
Uma criança que lê sobre outra criança com medo, com dúvidas, com coragem ou com tristeza descobre que o mundo interior é partilhável — e que, por isso, é mais leve.
A biblioterapia infantil não é uma moda: é uma prática antiga que a investigação contemporânea confirma.
Não é substituto de intervenção clínica, mas pode ser complemento essencial, preventivo, acessível e profundamente humano.
Num país como Portugal — literário por vocação, desigual na saúde mental e exemplar em bibliotecas — a pergunta já não é “será que podemos implementar biblioterapia infantil?”
A pergunta certa é:
“O que estamos à espera para o fazer?






