Em Portugal, continuamos a abordar a saúde mental como se fosse um território periférico, frágil e sempre à espera de uma reforma que nunca chega. Debatemos, com razão, a importância da psicoterapia, da medicação, dos cuidados primários e da prevenção. Mas persistimos em negligenciar um instrumento de uma simplicidade desconcertante e de uma profundidade humana incontornável: a leitura.
A biblioterapia, entendida como a utilização orientada e deliberada da leitura para fins de apoio emocional, processamento interno e reorganização cognitiva, é mais do que uma prática cultural. É uma ferramenta terapêutica fundada na literatura, sustentada pela psicologia e corroborada pela neurociência. A questão já não é se funciona, é por que motivo Portugal ainda não a integrou formalmente no seu sistema de saúde, ao ponto de admitir, com naturalidade, prescrições médicas de leitura.
O conceito pode parecer disruptivo, mas apenas para nós. No Reino Unido, o programa Reading Well Books on Prescription faz parte das políticas públicas desde 2013. Milhares de médicos recomendam livros específicos para ansiedade, depressão, insónia, luto, burnout ou dificuldades emocionais. O mecanismo é elegante: o médico prescreve; a biblioteca disponibiliza; o leitor inicia um percurso terapêutico acessível, seguro e gratuito.
Em Portugal, este modelo seria não apenas exequível, mas urgente.
Ler cura e há ciência a confirmá-lo
A leitura não é mero entretenimento. É uma tecnologia cognitiva que nos permite simular, em segurança, conflitos humanos, dilemas éticos, emoções contraditórias e experiências extremas. A literatura é, nesse sentido, um laboratório de humanidade.
A neurociência confirma o que a experiência leitora sempre intuiu:
- A leitura de ficção ativa redes cerebrais associadas à empatia, à cognição social e à capacidade de interpretar emoções alheias, incluindo circuitos de neurónios-espelho.
- Estudos comparativos revelam que leitores regulares de ficção apresentam melhor desempenho em tarefas de “theory of mind”, isto é, na capacidade de inferir estados mentais de outras pessoas.
- A leitura narrativa estimula regulação emocional, integração autobiográfica e diminuição da ruminação mental — os mesmos objetivos primários de muitas abordagens psicoterapêuticas.
Se existisse um fármaco com efeitos semelhantes — aumento de empatia, redução de ansiedade, melhoria da auto-perceção e fortalecimento da resiliência emocional — ele seria promovido como uma descoberta revolucionária.
A leitura já os oferece, e sem efeitos secundários.
Portugal reúne todas as condições, excepto a estrutura política
O problema não é a viabilidade. O problema é o atraso estratégico.
Portugal dispõe de:
- uma Rede de Bibliotecas Públicas e Escolares de elevada qualidade, das melhores da Europa;
- uma tradição literária profunda, que oferece autores com densidade psicológica singular;
- um sistema nacional de saúde sobrecarregado, que necessita de soluções preventivas e complementares;
- comunidades inteiras afetadas por burnout, ansiedade e exaustão estrutural;
- e um contexto socioeconómico onde intervenções acessíveis e gratuitas são cruciais.
Apesar desta combinação favorável, não existe ainda qualquer programa público que integre a leitura como instrumento terapêutico. A biblioterapia continua confinada à iniciativa individual de profissionais, à boa vontade de bibliotecas e ao interesse crescente dos leitores.
Portugal fala de prevenção, mas não operacionaliza a prevenção.
Fala de bem-estar, mas não fornece ferramentas comunitárias gratuitas.
Fala de saúde mental, mas continua a ignorar um recurso que já está no centro da vida cultural do país: os livros.
Por que a leitura deveria ser prescrita por profissionais de saúde?
1. Democratiza o acesso aos cuidados psicológicos
Uma prescrição de leitura é gratuita, universal e sem barreiras socioeconómicas. Leva apoio emocional a quem está excluído por custos, distâncias geografias ou estigma.
2. Reduz o estigma associado à saúde mental
Receber um livro prescrito não é visto como sinal de fragilidade. É visto como um gesto cultural, inteligente e socialmente aceite.
3. Fortalece a autonomia do leitor-paciente
A leitura é uma prática ativa. O leitor interpreta, projeta-se, reelabora a sua experiência. Torna-se sujeito, não apenas receptor.
4. Complementa — e não substitui — a intervenção clínica
A biblioterapia funciona como ampliação terapêutica: aprofunda temas abordados em sessão, prolonga o benefício entre consultas e oferece novas perspetivas.
5. Atua como ferramenta eficaz em quadros ligeiros a moderados
Burnout, ansiedade leve, tristeza profunda mas não patológica, dores do luto, crises relacionais — temas que a literatura explora com precisão e profundidade.
6. Prevê, amortece e transforma
A leitura é um dispositivo de prevenção.
Onde o sintoma ainda não existe, a narrativa já está a trabalhar.
O que seria necessário para instituir uma “prescrição de leitura” em Portugal?
Mais do que meios, precisamos de:
- Uma lista clinicamente validada de livros terapêuticos, abrangendo ficção, poesia, ensaio, narrativas pessoais.
- Formação cruzada entre médicos, psicólogos, bibliotecários e biblioterapeutas.
- Integração estrutural com bibliotecas públicas, permitindo que a prescrição seja imediatamente acionável.
- Protocolos éticos e clínicos, que garantam rigor e evitem usos superficiais.
- Monitorização científica contínua, que avalie impacto, eficácia e adesão.
Tudo isto é tecnicamente possível e financeiramente exequível.
O que falta é decisão.
Não é romantismo: é política pública baseada em evidência
Defender prescrições médicas de leitura não é idealismo literário.
É reconhecer que a leitura opera nos mesmos domínios psicológicos que a terapia — imaginação, simbolização, reflexão, empatia, ressignificação — e que o país tem uma infraestrutura cultural ideal para isso.
Num país onde:
- o analfabetismo desceu de 25,7% (1970) para 3,08% (2021),
- mas onde 42% dos adultos permanecem em níveis baixos de literacia,
- e onde as necessidades de apoio emocional são crescentes,
não integrar a leitura como ferramenta de saúde pública é um erro estratégico.
Prescrever leitura é prescrever humanidade e Portugal precisa disso mais do que nunca
A leitura é o gesto humano mais silencioso e, paradoxalmente, o mais transformador.
Num livro, o leitor encontra versões possíveis de si; adquire distância do seu sofrimento; compreende-se através do outro; reinventa a própria narrativa.
Prescrever leitura é prescrever lucidez.
É prescrever sentido.
É prescrever o direito a uma vida interior mais habitável.
Se Portugal deseja realmente assumir o compromisso de cuidar da saúde mental dos seus cidadãos — não com declarações, mas com medidas concretas — então deve dar o passo lógico que falta: integrar a biblioterapia na saúde pública e permitir que, tal como no Reino Unido, um médico possa prescrever um livro como parte de um plano terapêutico real e fundamentado.
A literatura já faz a sua parte.
Resta ao país decidir se quer acompanhar.





