Biblioterapia em Portugal: Enquadramento Histórico

A biblioterapia, entendida como a utilização deliberada da leitura para promover bem-estar emocional, aprofundamento interior, reorganização cognitiva e apoio psicológico, consolida-se hoje como uma disciplina que cruza literatura, psicologia, neurociência e práticas terapêuticas contemporâneas. Embora o termo e o seu enquadramento teórico tenham surgido e amadurecido noutros países, a história portuguesa da biblioterapia revela-se singular: mais tardia, mais fragmentada e profundamente condicionada pelo contexto cultural e educativo em que se insere. Para compreender este percurso, torna-se indispensável traçar uma linha comparativa entre a evolução internacional e a forma como Portugal, gradualmente, entrou neste movimento global, transformando práticas intuitivas e dispersas numa abordagem cada vez mais consciente, estruturada e institucionalizada.

1. A consolidação internacional do conceito (séculos XIX–XX)

A crença no poder transformador da leitura é muito anterior ao conceito moderno de biblioterapia: já os antigos egípcios inscreviam em templos dedicados à cura a expressão “Casa de Remédios da Alma”, e textos gregos relatam o uso de narrativas como forma de consolo. Contudo, é apenas a partir do século XIX, num contexto de crescente alfabetização, desenvolvimento das bibliotecas públicas e valorização da psicologia emergente, que a leitura começa a ser estudada enquanto instrumento terapêutico.

O marco formal surge em 1916, quando Samuel McChord Crothers publica o ensaio A Literary Clinic, introduzindo o termo bibliotherapy e sugerindo que certos livros poderiam funcionar como verdadeiros agentes de cura emocional. A partir daqui, a biblioterapia inicia um percurso gradual de legitimação.

Entre as décadas de 1920 e 1940, nos Estados Unidos e no Reino Unido, assistimos à integração de bibliotecas hospitalares em instituições de saúde mental e reabilitação física, onde a leitura se aliava às terapias ocupacionais. Este período é particularmente relevante porque surge a ideia de que os livros, quando selecionados e orientados por profissionais, têm função clínica complementar.

Durante a Segunda Guerra Mundial, hospitais militares norte-americanos recorrem sistematicamente a livros para atenuar trauma psicológico dos soldados, reforçando a ideia de que a leitura pode agir como estabilizador emocional.

Nas décadas de 1960 a 1980, com a ascensão da psicologia humanista, da psicanálise contemporânea e da terapia narrativa, a biblioterapia conhece um novo impulso. Surgem manuais técnicos, critérios de seleção, classificações temáticas e metodologias estruturadas, permitindo que o conceito se torne mais do que uma prática intuitiva: transforma-se num campo com intenção e fundamento.

2. O contexto português no mesmo período: entre a leitura e a ausência de enquadramento clínico

Enquanto o mundo anglo-saxónico desenvolvia enquadramentos formais, Portugal vivia um cenário profundamente diferente. O país encontrava-se ainda marcado por taxas elevadas de analfabetismo, por acesso limitado ao livro e por uma cultura de leitura dependente de espaços informais, o que atrasou inevitavelmente o desenvolvimento de qualquer abordagem terapêutica estruturada baseada em leitura.

2.1. Baixa literacia e escolarização tardia

As estatísticas oficiais ilustram de forma inequívoca a realidade portuguesa:

1970 — 25,7% da população com 10+ anos era analfabeta.

2011 — o valor desce para 5,2%.

2021 — reduz-se ainda mais para 3,08%.

Durante décadas, Portugal enfrentou limitações estruturais que dificultaram a implementação de práticas avançadas de mediação literária ou de biblioterapia. A escolaridade limitada e a escassez de bibliotecas, somadas a desigualdades sociais profundas, criaram um ambiente onde a leitura era privilégio, não hábito generalizado.

Ainda hoje, segundo o inquérito de competências da OCDE (PIAAC), 42% dos adultos portugueses encontram-se no nível 1 ou abaixo em literacia, o que significa que grande parte da população adulta continua a apresentar dificuldades significativas na compreensão de textos escritos. Esta realidade não invalida o desenvolvimento da biblioterapia, mas mostra o contexto cultural específico onde ela emerge.

2.2. A tradição portuguesa da leitura “como consolo”

Apesar das limitações formais, existiam práticas disseminadas de leitura com propósitos emocionais ou morais:

  • Leitura espiritual em espaços religiosos, muitas vezes vista como via de introspeção e orientação interior.
  • Recomendação médica ocasional de leituras edificantes, sobretudo em correntes de psiquiatria de influência francesa.
  • A leitura como refúgio emocional em cafés literários, tertúlias e círculos urbanos de cultura.

Estas práticas funcionavam como antecedentes culturais, ainda que não como biblioterapia formal.

3. O século XXI: receção, abertura e condições para o desenvolvimento da biblioterapia

Com o virar do século, Portugal entra finalmente num ciclo de transformação educativa, cultural e psicológica que cria terreno fértil para o aparecimento da biblioterapia como prática reconhecida.

3.1. A expansão da literacia e das bibliotecas

A generalização da escolaridade, a criação da Rede de Bibliotecas Escolares, o fortalecimento das bibliotecas municipais e a implementação de programas nacionais de incentivo à leitura alteraram profundamente o panorama cultural. Pela primeira vez, o país dispõe de massa crítica de leitores capaz de acolher práticas como a biblioterapia.

3.2. Abertura à psicologia contemporânea e às terapias expressivas

A popularização da psicoterapia, o aumento da literacia emocional e a normalização das práticas de apoio psicológico criam um ambiente maduro para o surgimento de abordagens que cruzam literatura e saúde mental, como a leitura terapêutica, a escrita expressiva e a terapia narrativa.

3.3. Primeiras referências académicas

É neste contexto que nomes como Maria do Rosário Pontes, da Faculdade de Letras do Porto, ganham destaque, introduzindo e divulgando o conceito em ambientes académicos, biblioteconómicos e educativos. A biblioterapia começa então a ser estudada, discutida e aplicada com rigor crescente.

4. A prática contemporânea em Portugal: emergência, profissionalização e institucionalização

4.1. Primeiras práticas formais

As duas últimas décadas testemunham:

  • clubes de leitura orientada com intenção terapêutica;
  • oficinas de leitura e bem-estar emocional;
  • programas em lares, prisões e escolas;
  • primeiras sessões individuais de biblioterapia;
  • projetos-piloto em bibliotecas públicas e comunitárias.

Estas iniciativas, ainda que inicialmente dispersas, marcam o momento em que a biblioterapia entra no léxico da prática cultural e social portuguesa.

4.2. A criação da APB — o marco institucional decisivo

A fundação da Associação Portuguesa de Biblioterapia (APB) constitui um ponto de viragem histórico.

A APB:

  • é a primeira e única entidade nacional exclusivamente dedicada à biblioterapia;
  • representa profissionais, práticas e valores éticos;
  • cria padrões, orientações e critérios de formação;
  • articula investigação, prática e divulgação;
  • constrói comunidade num campo até então isolado.

Assim como estruturas anglo-saxónicas surgiram décadas mais cedo, a APB inaugura em Portugal a possibilidade real de uma biblioterapia organizada, reconhecida e legitimada no espaço público.

4.3. Enquadramento científico e evidência neurocognitiva

A biblioterapia contemporânea apoia-se numa base científica sólida. Estudos internacionais de neurociência mostram que:

  • a leitura de ficção ativa redes cerebrais associadas à teoria da mente e à empatia, incluindo sistemas de neurónios-espelho;
  • leitores habituais de ficção literária apresentam, em EEG e fMRI, maior atividade nas regiões responsáveis pela compreensão das emoções alheias;
  • a leitura narrativa promove regulação emocional, imaginação, integração autobiográfica e reconciliação de conflitos internos — processos centrais em psicoterapia.

Estas evidências reforçam que a biblioterapia não é apenas um conceito literário, mas uma prática com fundamento neurobiológico e psicológico.

5. Portugal hoje: convergência entre cultura literária e prática terapêutica

Portugal vive, neste momento, a fase mais fértil da sua história no que diz respeito à biblioterapia:

  • o conceito entrou no vocabulário profissional;
  • surgem cada vez mais biblioterapeutas formados;
  • a literacia emocional torna-se prioridade;
  • a procura por orientação literária especializada cresce;
  • a APB estabelece uma estrutura que sustenta, orienta e regula o campo.

O país está, pela primeira vez, em condições de construir uma identidade própria de biblioterapia, profundamente enraizada na tradição literária portuguesa e informada pelas abordagens internacionais mais atuais.

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