Em França, a biblioterapia transforma. E se fizéssemos o mesmo em Portugal?

A França oferece-nos um olhar singular sobre a biblioterapia. Ao contrário dos modelos mais clínicos, como o norte-americano, ou comunitários, como o britânico, a abordagem francesa é enraizada na tradição intelectual, na estética da leitura, na psicanálise e na literatura como acto existencial.

Aqui, a biblioterapia não é apenas uma ferramenta de bem-estar — é um acto de resistência contra a pressa, o ruído e o vazio. É uma forma de pensar, de escutar e de habitar o mundo com mais presença.

Neste artigo, exploramos os caminhos que a biblioterapia percorre em França: dos clubes de leitura terapêuticos à bibliothérapie créative, das livrarias que prescrevem romances à defesa do livro como espaço de reconstrução interior.

Uma Abordagem Filosófica e Literária

A biblioterapia francesa nasce e cresce num solo fértil: o de uma sociedade que valoriza a leitura como património identitário e intelectual.

A prática é influenciada por correntes da psicanálise (especialmente lacaniana), pela fenomenologia, pela literatura existencialista e pela sociologia da leitura. Ler é visto como acto de construção de sentido, de relação com o texto e de reconfiguração simbólica do eu.

Na biblioterapia francesa, o texto literário não é apenas um “remédio” — é um espelho, um interpelador, uma possibilidade de deslocamento interno. O objectivo não é dar respostas, mas abrir espaço para perguntas que curam.

Clubes de Leitura Terapêuticos: espaços de escuta e transformação

Uma das práticas mais difundidas em França são os clubes de leitura com finalidade terapêutica, conduzidos por psicólogos, terapeutas, biblioterapeutas ou mediadores literários.

Nestes grupos, o texto é lido e comentado colectivamente, mas não como se estivesse a ser analisado — ele é sentido, partilhado, escutado com o corpo e com a alma.

As sessões privilegiam a escuta activa, o silêncio como espaço terapêutico, a palavra como gesto cuidadoso. Os participantes não são “doentes” nem “pacientes” — são leitores que se permitem sentir, lembrar, questionar e falar.

Há grupos em bibliotecas públicas, hospitais psiquiátricos, escolas, prisões, lares de idosos, livrarias independentes e centros culturais.

Bibliothérapie Créative: escrita, imaginação e reinvenção do eu

Outro eixo importante da biblioterapia em França é o da bibliothérapie créative — uma abordagem que alia leitura e escrita criativa com intenção terapêutica.

Esta vertente, defendida por autoras como Masha Gessen e praticada em oficinas um pouco por todo o país, propõe uma reconstrução simbólica do eu a partir da linguagem, do imaginário e da memória.

Poemas, fragmentos narrativos, cartas e contos são usados como ponto de partida para exercícios de escrita, dramatização ou meditação literária. A leitura não serve apenas para compreender — serve para reconfigurar o que se sente, nomear o que dói e imaginar o que ainda não tem forma.

Os “livros remédio” e a prescrição literária nas livrarias

Embora a prescrição de livros não esteja integrada no sistema nacional de saúde francês como no Reino Unido, algumas livrarias independentes criaram os seus próprios programas de “livros remédio”.

Clientes entram com um estado emocional; saem com um romance.
Livros para o luto, para a raiva, para o amor não correspondido, para a tristeza sem nome. Não são livros de autoajuda — são obras literárias que espelham, elevam e expandem a experiência humana.

Alguns destes projectos têm recebido reconhecimento da crítica, como o da livraria “L’Usage du Monde”, em Lyon, ou a colecção “Bibliothérapie” da Éditions Payot, que publica textos filosófico-literários com fins terapêuticos.

Reflexão Académica e Resistência Cultural

A biblioterapia em França também está presente nas universidades, em cursos de literatura comparada, sociologia da leitura e psicologia clínica. Mas mantém-se, em muitos aspectos, um gesto de resistência poética.

Resistência ao medicalismo excessivo. À leitura como consumo rápido. À solidão emocional silenciosa.

Aqui, a cura não vem da solução, mas do vínculo com o texto, com o outro e consigo próprio.

O que Portugal pode aprender com França?

Que a leitura pode ser um espaço ético e estético de reconstrução interior

Que o grupo, o silêncio e a escuta são ferramentas terapêuticas tão potentes quanto o texto

Que a biblioterapia não precisa ser sempre clínica — pode ser filosófica, poética, sensível

Que a literatura tem valor terapêutico mesmo quando não tem “lições de vida”

Que há lugar para a imaginação, para o inconsciente, para o não dito

Portugal, com a sua rica tradição literária e poética, tem tudo para criar uma prática biblioterapêutica em diálogo com o espírito francês — mas com a alma portuguesa.

Em França, encontrei uma abordagem à biblioterapia que me comove: menos técnica, mais simbólica; menos resposta, mais escuta.
Vejo nela um convite: a fazer da leitura um lugar onde a vida se pensa, se sente, se refaz.

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