A literatura não tem obrigação de nos tornar pessoas melhores

Reconhecer os benefícios da leitura não significa exigir que todos os livros nos transformem. Entre o valor artístico da literatura, o desenvolvimento das nossas capacidades e as possibilidades terapêuticas da leitura, existe uma relação muito mais rica do que aquela que frequentemente procuramos estabelecer.

Vivemos num tempo em que a leitura é frequentemente apresentada através dos benefícios que pode proporcionar. Lemos para desenvolver a empatia, estimular o pensamento crítico, enriquecer o vocabulário, melhorar a concentração, compreender as emoções ou encontrar algum equilíbrio perante as dificuldades da vida. Multiplicam-se os discursos que procuram demonstrar a utilidade dos livros, como se a literatura necessitasse de uma justificação exterior à própria experiência literária para ocupar um lugar relevante nas nossas vidas. Mesmo quando procuramos promover a leitura, parece existir uma necessidade crescente de explicar aquilo que ela nos oferece, aquilo que desenvolve em nós e, sobretudo, aquilo em que nos poderá transformar.

Não questiono a importância destes benefícios. Pelo contrário, uma parte significativa do meu trabalho tem sido dedicada precisamente à compreensão das relações entre leitura, desenvolvimento humano e bem-estar, bem como à valorização das possibilidades de intervenção que a literatura oferece em diferentes contextos. Conhecemos hoje melhor alguns dos processos cognitivos e emocionais envolvidos na leitura e dispomos de investigação que identifica associações entre os hábitos de leitura e o desenvolvimento de determinadas competências. Contudo, reconhecer estas potencialidades não significa que devamos transformar a literatura numa atividade permanentemente subordinada à obtenção de resultados.

O que me interessa discutir é a facilidade com que passamos da possibilidade para a obrigação, transformando aquilo que a literatura pode proporcionar numa finalidade que lhe exigimos cumprir. Quando afirmamos que ler nos torna mais empáticos, mais conscientes ou moralmente melhores, estaremos a reconhecer uma potencialidade da experiência literária ou a atribuir-lhe uma responsabilidade que nunca lhe pertenceu inteiramente? E, antes de mais, o que significa tornar-nos pessoas melhores? Desenvolver uma maior capacidade de compreender os outros? Possuir mais conhecimentos? Demonstrar comportamentos socialmente desejáveis? Ou corresponder a uma determinada conceção moral sobre aquilo que devemos ser?

A questão não é nova. Em 1891, no prefácio de O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde escreveu que não existem livros morais ou imorais, mas livros bem ou mal escritos. A afirmação, deliberadamente provocadora, inscreve-se num debate histórico sobre a autonomia da arte e a sua relação com os valores morais. Wilde não pretendia afirmar que a literatura estivesse desligada das questões humanas ou que as obras fossem imunes à reflexão ética. Procurava, antes, contestar a ideia de que o valor artístico de um livro pudesse ser determinado exclusivamente pela moralidade das personagens, pelos comportamentos representados ou pelas lições que o leitor dele retirasse. A literatura possui uma natureza estética e expressiva que não se esgota na transmissão de princípios ou na defesa de modelos de comportamento.

A história literária oferece-nos inúmeros exemplos dessa complexidade. Em Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995, José Saramago constrói uma alegoria perturbadora sobre a condição humana, expondo a violência, o egoísmo, a fragilidade das estruturas sociais e a facilidade com que a civilização pode perder os seus fundamentos. A experiência de leitura dificilmente se confunde com conforto ou tranquilidade. Saramago não nos apresenta um mundo moralmente organizado, no qual os comportamentos virtuosos sejam necessariamente recompensados e os atos condenáveis recebam uma punição proporcional. Confronta-nos, pelo contrário, com uma humanidade contraditória, capaz de gestos de solidariedade e de manifestações extremas de crueldade, obrigando-nos a olhar para aspetos da existência que preferiríamos, talvez, manter à distância.

O valor desta experiência não reside necessariamente na possibilidade de terminarmos o romance como pessoas moralmente superiores àquelas que éramos antes de o iniciar. Reside, em parte, na complexidade das perguntas que a obra suscita e na recusa de oferecer respostas suficientemente simples para nos tranquilizarem. A literatura pode, neste sentido, constituir um espaço de confronto, no qual as nossas convicções deixam de encontrar confirmação imediata e passam a ser submetidas à dúvida. E considero que esta capacidade de inquietar, questionar e confrontar o leitor é tão importante quanto a possibilidade de lhe proporcionar conforto, identificação ou reconhecimento.

Esta dimensão torna-se particularmente relevante quando pensamos na relação entre literatura e formação moral. É frequente atribuir-se à ficção a capacidade de nos colocar no lugar do outro, permitindo-nos experimentar perspetivas diferentes e compreender realidades que não pertencem à nossa experiência direta. A filósofa Martha Nussbaum desenvolveu esta reflexão em obras como Love’s Knowledge (1990) e Poetic Justice (1995), defendendo a importância da imaginação literária para a compreensão da complexidade humana e para o desenvolvimento de uma atenção mais sensível às circunstâncias particulares da vida dos outros. Na sua perspetiva, a literatura pode enriquecer o pensamento ético precisamente porque nos aproxima de experiências individuais que dificilmente poderiam ser compreendidas apenas através de princípios abstratos.

Esta abordagem parece-me especialmente relevante porque reconhece algo que considero fundamental: a literatura pode contribuir para desenvolver capacidades que enriquecem a nossa relação com o mundo e com os outros, sem que isso signifique que nos transforma automaticamente em pessoas moralmente melhores.

A distinção merece ser aprofundada. A leitura permite-nos contactar com diferentes formas de pensar, interpretar experiências que desconhecemos e compreender motivações que não correspondem às nossas. Ao acompanhar a vida interior de uma personagem, somos convidados a considerar circunstâncias, emoções e perspetivas que podem desafiar as nossas convicções. Esta experiência pode favorecer a empatia, a abertura a outras realidades e uma compreensão mais complexa das relações humanas. Contudo, compreender uma experiência não equivale necessariamente a aprová-la, tal como reconhecer o sofrimento de alguém não garante que venhamos a agir de forma mais solidária ou tolerante.

A investigação científica ajuda-nos a compreender melhor esta relação. Em 2013, David Comer Kidd e Emanuele Castano publicaram, na revista Science, um estudo que identificou melhorias no desempenho de determinadas tarefas relacionadas com a compreensão dos estados mentais de outras pessoas após a leitura de ficção literária. Os resultados receberam considerável atenção, embora investigações posteriores tenham encontrado dificuldades em reproduzir consistentemente os mesmos efeitos imediatos. Em 2018, David Dodell-Feder e Diana Tamir publicaram uma meta-análise que identificou um efeito positivo, embora pequeno, da leitura de ficção em medidas de cognição social.

Mais recentemente, em 2024, Lena Wimmer e colaboradores publicaram, no Journal of Experimental Psychology: General, duas meta-análises sobre os efeitos cognitivos da leitura de ficção. Os resultados apontaram para benefícios positivos de pequena dimensão, particularmente em capacidades verbais, mas também em outras dimensões cognitivas e sociais. A investigação contribui, assim, para sustentar a existência de relações entre leitura e desenvolvimento de competências, embora não permita concluir que uma determinada experiência literária produza os mesmos efeitos em todos os leitores.

Também no domínio da linguagem, os contributos da leitura merecem reconhecimento. A exposição continuada a textos escritos proporciona contacto com vocabulário diversificado, estruturas sintáticas complexas, diferentes formas de organização do discurso e possibilidades expressivas que enriquecem a experiência linguística. Em 2011, Suzanne Mol e Adriana Bus publicaram uma meta-análise de 99 estudos que identificou associações relevantes entre a exposição à leitura e diferentes competências de literacia, ao longo da infância e da juventude. Os resultados não significam que todos os progressos linguísticos resultem diretamente da leitura, mas reforçam a importância do contacto frequente com os textos no desenvolvimento das capacidades verbais.

Estes conhecimentos são particularmente importantes para quem, como eu, defende a valorização da leitura enquanto experiência cultural, intelectual e humana. Acredito profundamente que os livros podem contribuir para ampliar o nosso conhecimento, enriquecer a linguagem, estimular a imaginação e favorecer uma maior abertura à diversidade das experiências humanas. A literatura oferece-nos oportunidades para pensar de forma mais complexa, questionar certezas e desenvolver recursos intelectuais e emocionais que poderão ser mobilizados nas mais diversas circunstâncias da vida.

No entanto, importa distinguir o desenvolvimento destas capacidades da ideia de aperfeiçoamento moral. Possuir um vocabulário mais rico não torna necessariamente alguém mais bondoso; compreender melhor as emoções dos outros não garante comportamentos mais justos; conhecer diferentes perspetivas não significa que estejamos sempre dispostos a respeitá-las. A formação do carácter, os valores e as escolhas individuais resultam de processos complexos, nos quais intervêm fatores pessoais, educativos, sociais e culturais.

A literatura pode participar nesses processos, mas não os determina e não os encerra

Suzanne Keen, na obra Empathy and the Novel (2007), questiona precisamente a tendência para estabelecer uma relação direta entre a empatia provocada pela ficção e o desenvolvimento de comportamentos altruístas. A investigadora reconhece a importância das respostas emocionais dos leitores, mas demonstra que a existência dessas respostas não permite concluir que a leitura produza necessariamente consequências morais positivas. A empatia narrativa constitui um fenómeno relevante, mas não pode ser confundida com uma garantia de transformação ética.

Esta perspetiva não diminui o valor da literatura. Pelo contrário, convida-nos a reconhecer a riqueza de uma experiência cujos resultados nem sempre são previsíveis. Um romance pode despertar compaixão, inquietação, desconforto ou resistência. Pode aproximar-nos de uma personagem que inicialmente rejeitávamos, revelar-nos a dificuldade de compreender alguém cuja visão do mundo permanece distante da nossa ou conduzir-nos à revisão de uma convicção profundamente enraizada. Pode também proporcionar-nos simplesmente prazer, encantamento ou uma experiência estética memorável. Nenhuma destas possibilidades necessita de ser apresentada como superior às restantes.

É neste ponto que encontro particular pertinência no pensamento da crítica literária Rita Felski. Em Uses of Literature (2008), a autora propõe quatro formas de compreender o envolvimento dos leitores com as obras literárias: reconhecimento, encantamento, conhecimento e choque. Esta perspetiva permite pensar a leitura para além da simples aquisição de informação ou da transmissão de valores, reconhecendo que os livros podem proporcionar experiências muito diferentes, desde a identificação com uma personagem até ao espanto perante uma realidade desconhecida, passando pela descoberta intelectual e pelo confronto com aquilo que nos perturba.

A proposta de Felski parece-me especialmente valiosa porque restitui complexidade à experiência literária. Nem sempre procuramos um livro para aprender alguma coisa sobre nós próprios, e nem sempre desejamos encontrar nele uma mensagem reconfortante. Por vezes, procuramos simplesmente a beleza de uma linguagem, a inteligência de uma construção narrativa ou o prazer de acompanhar uma história. Outras vezes, somos atraídos por personagens moralmente ambíguas, por conflitos impossíveis de resolver ou por universos ficcionais que desafiam aquilo que consideramos aceitável. A possibilidade de experimentar estas diferentes formas de relação com a literatura constitui, em si mesma, uma expressão da liberdade do leitor. É precisamente essa liberdade que considero necessário preservar.

Quando transformamos a literatura num instrumento cuja finalidade principal é produzir determinados efeitos, corremos o risco de condicionar a forma como escolhemos, apresentamos e interpretamos os livros. A tendência para procurar uma utilidade em cada leitura pode conduzir-nos a privilegiar obras que oferecem mensagens facilmente identificáveis, personagens exemplares ou conclusões moralmente tranquilizadoras, deixando em segundo plano textos cuja riqueza reside na ambiguidade, na experimentação estética ou na recusa de respostas definitivas.

Esta preocupação torna-se particularmente evidente quando pensamos na literatura infantil, frequentemente apresentada aos adultos através das competências que poderá desenvolver nas crianças. Há livros para trabalhar as emoções, aprender a partilhar, compreender a diferença, ultrapassar medos ou desenvolver comportamentos socialmente desejáveis. Estas finalidades podem ser legítimas e relevantes em determinados contextos educativos, mas não deveriam tornar-se o principal critério de valorização da literatura destinada à infância. As crianças também têm direito a histórias que não pretendam ensinar-lhes uma lição, a personagens que se comportem de forma inesperada, a narrativas absurdas e a experiências de leitura que alimentem simplesmente a imaginação. Uma obra literária não precisa de conter uma mensagem pedagógica explícita para contribuir para a formação cultural de uma criança.

 

É também neste contexto que considero fundamental distinguir o valor da literatura das finalidades específicas da biblioterapia, evitando que duas perspetivas complementares sejam interpretadas como contraditórias.

 

A biblioterapia parte precisamente do reconhecimento de que a leitura possui potencialidades que podem ser mobilizadas, de forma intencional e fundamentada, para apoiar o desenvolvimento humano, promover o bem-estar e acompanhar pessoas que enfrentam dificuldades ou momentos particularmente exigentes da vida. Não existe para transformar os leitores em pessoas moralmente superiores, nem para lhes impor modelos de comportamento considerados ideais. A sua finalidade é proporcionar recursos e experiências que possam contribuir para uma maior compreensão de si próprios, para a expressão e gestão emocional, para o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e para a construção de novas perspetivas perante os desafios da existência.

Esta distinção é essencial para compreender a natureza da intervenção biblioterapêutica. Quando uma pessoa atravessa uma situação de luto, uma mudança significativa, um período de ansiedade ou uma experiência de solidão, a leitura pode oferecer-lhe possibilidades de identificação, reconhecimento e reflexão que nem sempre encontra facilmente noutros contextos. Uma personagem que enfrenta uma experiência semelhante pode ajudá-la a reconhecer emoções difíceis de nomear; uma narrativa que apresenta diferentes formas de lidar com a adversidade pode ampliar a sua compreensão das possibilidades disponíveis; um poema pode oferecer palavras para sentimentos que permaneciam confusos ou difíceis de expressar.

O objetivo não é corrigir moralmente o leitor, mas ajudá-lo a encontrar recursos para compreender e enfrentar aquilo que está a viver.

Naturalmente, a biblioterapia não se limita ao acompanhamento de situações de sofrimento. Nas suas modalidades de desenvolvimento, educativas e comunitárias, pode igualmente contribuir para promover a literacia emocional, favorecer o autoconhecimento, estimular a reflexão crítica e desenvolver competências relevantes para a vida em sociedade. Em determinados contextos clínicos, intervenções estruturadas baseadas em materiais escritos, particularmente de autoajuda orientada e fundamentadas em abordagens psicológicas, apresentam evidência de utilidade no apoio a problemas específicos de saúde mental. Estas modalidades distinguem-se das práticas de biblioterapia criativa, baseadas na leitura e exploração de obras literárias, para as quais a investigação continua a procurar estabelecer com maior precisão os benefícios, os mecanismos de intervenção e as condições de aplicação.

É importante reconhecer estas diferenças, porque o valor da biblioterapia não depende de lhe atribuirmos capacidades ilimitadas, mas da adequação entre os seus objetivos, os métodos utilizados e as necessidades de cada pessoa. Uma intervenção biblioterapêutica não é uma simples recomendação de livros, nem pressupõe que a leitura, isoladamente, constitua uma solução universal. A escolha dos textos, a preparação dos profissionais, a qualidade da mediação e o respeito pela experiência individual dos participantes são dimensões fundamentais de uma prática responsável. Em situações clínicas, importa igualmente assegurar o enquadramento e o acompanhamento por profissionais devidamente habilitados, respeitando os limites da intervenção e a eventual necessidade de outros cuidados de saúde.

Reconhecer estas condições não enfraquece a biblioterapia. Pelo contrário, contribui para a sua credibilidade e para o desenvolvimento de práticas mais consistentes, conscientes e adequadas às necessidades das pessoas.

Mas existe ainda uma dimensão que considero particularmente importante: mesmo quando a leitura é integrada numa intervenção biblioterapêutica, o leitor continua a ser livre na forma como interpreta o texto e constrói significado a partir dele. Uma narrativa selecionada para trabalhar determinada questão emocional pode suscitar reflexões inesperadas, despertar memórias diferentes das inicialmente previstas ou conduzir a interpretações que não correspondem às expectativas de quem orienta a atividade. Essa diversidade não deve ser entendida como uma fragilidade do processo, mas como uma característica da própria experiência literária.

Em 2024, Edsel Parke publicou online um artigo no Journal of Poetry Therapy, dedicado à autonomia do leitor e aos riscos de uma compreensão excessivamente instrumental da literatura em biblioterapia. O autor chama a atenção para a importância de reconhecer as experiências particulares dos leitores e evitar que os textos sejam tratados apenas como instrumentos destinados a produzir respostas previamente determinadas. Esta reflexão parece-me especialmente pertinente, porque nos recorda que a qualidade de uma intervenção biblioterapêutica não depende exclusivamente da escolha de um livro considerado adequado, mas também da capacidade de acolher aquilo que cada pessoa efetivamente encontra na leitura.

Defender a autonomia da literatura e reconhecer o valor da biblioterapia são, por isso, posições perfeitamente compatíveis

A primeira reconhece que a criação literária possui uma dimensão artística, estética e cultural que não depende de uma finalidade terapêutica ou educativa. A segunda demonstra que, em determinados contextos, podemos recorrer às potencialidades dessa experiência para promover o desenvolvimento humano e apoiar o bem-estar. Uma não elimina a outra, porque partem de questões diferentes e respondem a finalidades distintas.

A literatura não precisa de ter sido escrita para ajudar alguém a ultrapassar uma dificuldade para que um leitor encontre nela conforto ou reconhecimento. Um romance não necessita de apresentar uma mensagem de esperança para que possa suscitar uma reflexão importante sobre a vida. Um poema não tem de oferecer soluções para que as suas palavras ajudem alguém a compreender uma emoção. É precisamente nesta abertura, nesta possibilidade de estabelecer relações inesperadas entre o texto e a experiência individual, que encontro uma das dimensões mais interessantes da leitura e da sua utilização em biblioterapia.

Acredito que a defesa da leitura se torna mais consistente quando reconhecemos simultaneamente o seu valor cultural e as suas possibilidades de aplicação. Podemos estudar os benefícios cognitivos da literatura, investigar o seu contributo para a empatia e a linguagem, desenvolver programas de biblioterapia e promover a leitura em contextos educativos, sociais e de saúde, sem que isso implique exigir a todas as obras literárias uma função previamente definida.

Defender a autonomia da literatura não significa, contudo, colocá-la acima de qualquer reflexão ética. Os livros participam na construção das representações que fazemos do mundo e podem reproduzir preconceitos, questionar relações de poder ou influenciar a forma como interpretamos determinadas experiências. As escolhas dos escritores e as interpretações dos leitores são passíveis de discussão, crítica e contestação. A liberdade artística não elimina a responsabilidade de pensar criticamente aquilo que lemos, mas impede que confundamos essa responsabilidade com a exigência de que todas as obras transmitam valores exemplares ou produzam efeitos moralmente positivos.

Talvez seja precisamente nesta tensão que resida uma parte importante do valor da literatura: na possibilidade de nos aproximarmos da complexidade humana sem a obrigação de a simplificar. A ficção permite-nos habitar temporariamente perspetivas que não são as nossas, confrontar contradições, experimentar a incerteza e reconhecer que nem todas as experiências podem ser organizadas em categorias morais suficientemente claras. A literatura não substitui o pensamento ético, mas pode oferecer-lhe matéria, profundidade e uma consciência mais aguda das ambiguidades da existência.

Não acredito, por isso, que devamos abandonar a investigação sobre os benefícios da leitura, nem deixar de promover as suas aplicações educativas, sociais ou terapêuticas. Acredito, sim, que devemos resistir à tentação de transformar esses benefícios numa obrigação universal, como se cada livro necessitasse de demonstrar a sua utilidade para merecer ser lido. Há uma diferença fundamental entre reconhecer que uma experiência pode transformar-nos e exigir que essa transformação aconteça.

Talvez um dos maiores contributos da literatura esteja precisamente na impossibilidade de anteciparmos inteiramente aquilo que um livro fará connosco. Podemos iniciar uma leitura à procura de respostas e terminar com novas perguntas; podemos procurar conforto e encontrar inquietação; podemos reconhecer-nos numa personagem que nos perturba ou descobrir que a nossa interpretação de uma história se modifica à medida que também nós mudamos.

Nem todas as leituras nos tornarão mais empáticos, mais justos ou mais conscientes. Algumas poderão transformar profundamente a forma como pensamos e sentimos; outras permanecerão connosco apenas pela beleza de uma frase, pela intensidade de uma imagem ou pela memória de uma personagem. Haverá livros que nos ajudarão a atravessar momentos difíceis, livros que ampliarão o nosso conhecimento e outros que nos proporcionarão simplesmente o prazer de ler. Nenhuma destas experiências diminui a legitimidade das restantes.

A literatura não tem obrigação de nos tornar pessoas melhores. Tem o direito de nos inquietar, surpreender, confrontar, encantar ou simplesmente proporcionar prazer. E nós, enquanto leitores, temos o direito de nos aproximarmos dela sem a exigência permanente de nos tornarmos alguma coisa.

Mas reconhecer esta liberdade não significa ignorar o extraordinário potencial da leitura. Significa, antes, compreender que a literatura pode enriquecer a nossa linguagem, ampliar o pensamento, desenvolver a sensibilidade e oferecer recursos importantes para enfrentar as dificuldades da vida, sem que esses benefícios constituam uma obrigação inerente a cada obra ou uma promessa de transformação universal.

É precisamente porque acredito nas potencialidades da literatura e no valor da biblioterapia que considero essencial preservar esta distinção. O trabalho biblioterapêutico pode ajudar-nos a construir caminhos de compreensão, desenvolvimento e bem-estar, respeitando sempre a singularidade de cada leitor. A literatura, por sua vez, conserva a liberdade de existir para além de qualquer finalidade que lhe procuremos atribuir.

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