A evolução da Biblioterapia em Portugal: da investigação à construção de uma comunidade profissional

O desenvolvimento da biblioterapia em Portugal resulta de um percurso construído por investigadores e profissionais de diferentes áreas. A criação da Associação Portuguesa de Biblioterapia, em 2025, representa uma nova etapa neste processo, abrindo caminho à organização, à valorização e ao reconhecimento de um campo de intervenção com crescente relevância cultural, educativa e social.

A história da biblioterapia em Portugal não começou com a criação de uma associação, nem pode ser atribuída a uma única geração de investigadores ou profissionais. O seu desenvolvimento resulta de um percurso construído ao longo de vários anos, através de trabalhos académicos, experiências de intervenção e iniciativas que procuraram compreender de que forma a leitura, quando integrada em metodologias adequadas, pode contribuir para o desenvolvimento pessoal, a expressão emocional e o bem-estar. É uma história que merece ser reconhecida, não apenas pelo valor dos contributos que a constituem, mas também porque permite compreender a transformação que a biblioterapia portuguesa atravessa atualmente.

Durante muito tempo, o interesse por esta área desenvolveu-se de forma relativamente dispersa, encontrando expressão nas ciências da informação, na educação, na psicologia e em determinados contextos de saúde. Investigadores, professores, bibliotecários e outros profissionais foram explorando as possibilidades da leitura para além da aquisição de conhecimentos e do prazer literário, reconhecendo que a relação estabelecida entre um leitor e um texto pode oferecer oportunidades de reflexão, identificação e compreensão da experiência humana.

A produção científica portuguesa apresenta testemunhos importantes desse percurso. Em 2012, Manuela Barreto Nunes, João Gouveia, Marisa Pedrosa e Madalena Van-Zeller apresentaram, no Congresso Nacional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, um trabalho dedicado à biblioterapia de desenvolvimento em bibliotecas escolares, explorando a relação entre leitura, gestão das emoções e pensamento crítico. No ano seguinte, Ana Cristina Abreu, María Ángeles Zulueta e Anabela Henriques publicaram, nos “Cadernos BAD”, o artigo «Biblioterapia: estado da questão», contribuindo para uma reflexão sobre os fundamentos conceptuais, as diferentes modalidades de intervenção e os desafios colocados à formação dos profissionais. Já em 2016, Fernando Fraga Azevedo e Karla Haydê Oliveira realizaram um mapeamento da produção académica sobre biblioterapia em Portugal, permitindo conhecer melhor os trabalhos desenvolvidos no ensino superior.

A dimensão prática também foi adquirindo expressão. Em Braga, uma experiência de biblioterapia desenvolvida junto de pessoas idosas demonstrou possibilidades de utilização de atividades literárias como recurso de socialização e participação. Estes exemplos não representam a totalidade das iniciativas realizadas no país, mas ilustram a diversidade de públicos e de contextos que foram contribuindo para o desenvolvimento da área.

De actividades isoladas a organização profissional

O percurso português revela, assim, uma realidade particularmente importante: existia conhecimento, experiência e interesse profissional, mas estes encontravam-se frequentemente isolados e pouco articulados. Durante muito tempo, profissionais de diferentes áreas trabalharam de forma independente, desenvolvendo projetos individuais e procurando, muitas vezes, os seus próprios caminhos de formação e intervenção. A ausência de uma estrutura associativa nacional especificamente dedicada à biblioterapia dificultava a criação de espaços permanentes de encontro, a partilha de recursos, a sistematização de práticas e a definição de objetivos comuns. Tudo estava, em grande medida, disperso, apesar da qualidade e do empenho de quem trabalhava no terreno.

Foi neste contexto que surgiu a Associação Portuguesa de Biblioterapia (APB), fundada a 18 de março de 2025, com o propósito de promover o desenvolvimento da área, aproximar profissionais e contribuir para a valorização da leitura nas suas diferentes dimensões. O aparecimento da Associação representa um marco institucional relevante, na medida em que oferece à biblioterapia portuguesa uma estrutura organizada, dedicada à construção de uma comunidade e à promoção de iniciativas de formação, reflexão e intervenção.

A importância desta mudança ultrapassa a existência de uma nova organização. A Associação está a conseguir reunir profissionais que, durante anos, trabalharam de forma muito independente, criando oportunidades de encontro, articulação e colaboração. Está também a disponibilizar recursos a todos os profissionais que procuram formação, aprofundamento e apoio para desenvolver os seus projetos. Ao mesmo tempo, procura acompanhar e fortalecer iniciativas individuais, reconhecendo que muitos projetos importantes nasceram da dedicação de profissionais que, apesar de trabalharem isoladamente, contribuíram decisivamente para o crescimento da área.

Um bibliotecário, um psicólogo, um professor ou um profissional de saúde podem encontrar na biblioterapia um território de convergência, sem que isso implique a diluição das suas competências ou responsabilidades. Pelo contrário, o reconhecimento das diferenças é indispensável à construção de uma área interdisciplinar credível. A articulação entre saberes e experiências permite criar respostas mais consistentes, apoiar melhor os projetos existentes e abrir novas possibilidades de intervenção.

A APB procura assumir um papel agregador neste processo, promovendo a circulação de conhecimento, a formação especializada e o desenvolvimento de oportunidades de participação. A criação de um círculo de leitura para associados, a dinamização de iniciativas públicas e o planeamento de novos projetos formativos e comunitários representam diferentes expressões de uma visão que pretende aproximar a biblioterapia das pessoas e das instituições. Ao reunir profissionais em torno de objetivos partilhados, a Associação contribui igualmente para uma maior consciência da importância da qualidade metodológica, da responsabilidade ética e da preparação necessária às diferentes modalidades de intervenção.

A evolução registada no último ano tem sido muito significativa e extremamente positiva. No contacto com profissionais no terreno, são frequentes os testemunhos de quem afirma encontrar agora um caminho mais claro, apoio, possibilidades de articulação e acesso a formações de qualidade. Muitos profissionais valorizam particularmente a formação promovida pela Associação e manifestam satisfação perante esta nova perspetiva para a biblioterapia em Portugal. O que antes era vivido de forma dispersa começa a transformar-se numa rede de relações, recursos e oportunidades partilhadas.

O futuro da biblioterapia está na comunidade

A palavra “COMUNIDADE“, escolhida como princípio orientador do atual mandato da Associação, traduz uma convicção fundamental: o desenvolvimento da biblioterapia não dependerá exclusivamente da capacidade individual dos seus profissionais, mas também da qualidade das relações que forem capazes de estabelecer entre si. Criar comunidade significa reconhecer o trabalho de quem abriu caminho, acolher novas perspetivas, incentivar a colaboração e transformar conhecimentos dispersos num património coletivo que possa continuar a crescer. Significa também garantir que nenhum profissional interessado em contribuir para esta área tenha de trabalhar sozinho ou sem acesso a orientação e recursos.

Portugal encontra-se, assim, numa etapa particularmente promissora. O trabalho pioneiro de investigadores e profissionais criou uma base de conhecimento que importa preservar e aprofundar; a existência de uma associação nacional oferece novas possibilidades de organização, formação e cooperação; e o interesse crescente pelas relações entre leitura, saúde, educação e bem-estar abre oportunidades de desenvolvimento em diferentes setores da sociedade. A evolução da biblioterapia portuguesa no último ano foi muito, muito positiva, precisamente porque permitiu passar de uma realidade marcada pelo isolamento e pela dispersão para uma dinâmica de maior proximidade, confiança e construção coletiva.

O futuro da biblioterapia portuguesa deverá ser construído sobre estes fundamentos, sem desvalorizar o passado nem antecipar reconhecimentos que exigem tempo, investigação e trabalho continuado. Para 2027, a Associação Portuguesa de Biblioterapia está a preparar projetos excelentes e novas iniciativas destinadas a consolidar este caminho, reforçar a formação, apoiar os profissionais e ampliar a presença da biblioterapia em diferentes contextos. O objetivo é continuar a criar condições para que mais pessoas encontrem apoio, recursos e oportunidades de participação, contribuindo para uma área cada vez mais sólida e reconhecida.

O verdadeiro significado da transformação em curso reside na possibilidade de conferir maior continuidade a um percurso já iniciado, criando condições para que a biblioterapia seja cada vez mais conhecida, estudada e exercida com preparação e responsabilidade. A Associação está a ajudar a agregar profissionais, a fortalecer projetos individuais e a construir uma comunidade capaz de pensar e agir em conjunto.

A biblioterapia em Portugal tem uma história que merece ser contada e um futuro que importa construir. A criação de uma comunidade profissional organizada representa um passo decisivo para aproximar estas duas dimensões, transformando um património de conhecimento e experiência num projeto coletivo de desenvolvimento.

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